Desde que soube da reinauguracao do Teatro Atheneu, o tema nao sai da minha cabeça. Tudo o que vejo, leio e penso me faz lembrar aquele lugar! Ao mesmo tempo, não consigo organizar em palavras o tanto de coisa que tenho pra dizer, nem traduzir em texto toda emoção que eu consigo sentir com a reabertura dessa grandiosa obra.
Sim, talvez para alguns seja apenas a reinauguração de mais uma obra do Governo do Estado (Secretaria da Cultura) com muitos milhões investidos. Mas para a arte, para mim e muitos outros artistas sergipanos, afirmo sem medo de errar que o novo Atheneu, que será devolvido ao público hoje, é um espaco mágico, impregnado de criatividade e fantasia que, em algum momento, já foi a “casa” de muitos artistas, inclusive a minha.
Mesmo tendo me apresentado poucas vezes no palco do Atheneu, sou uma das apaixonadas por aquele espaço. No teatro conheci pessoas incríveis, íntegras, puras e realizadas com o ofício de dar vida a personagens e levar entretenimento, reflexões e muitas vezes até amenizar a dor do seu público.
Ser artista e obedecer ao seu talento é uma decisão muito nobre e, acreditem, para os fortes! Nao é facil seguir numa profissão com tantas limitações, dificuldades e preconceitos. É injusto dedicar uma vida inteira à arte sem, muitas vezes, poder contar com o básico: um espaco para apresentar o seu trabalho.
Mas, neste post, quero aplaudir em cena aberta a brilhante ideia de homenagear alguns dos grandes artistas sergipanos na fachada do teatro.
Valdice Telles, nascida em Riachuelo, foi atriz do grupo Imbuaça por 25 anos. Como dramaturga, Valdice adaptou da literatura de cordel dois dos maiores sucessos do grupo: “Antônio Meu Santo” e “Dança dos Santos”. O último trabalho como atriz foi no espetáculo “Desvalidos”. Morreu em 2005,aos 47 anos, de insuficiência respiratória.
Tive a honra de conviver, contracenar e principalmente aprender com Valdice durante o espetáculo “Antônio Meu Santo”, quando convidada pelo Grupo Imbuaça para dar vida a uma das beatas devotas de Santo Antônio e desesperada para casar a qualquer custo.
Um espetáculo de montagem simples, porém riquissimo em elenco, interpretação, cultura popular e sucesso absoluto em crítica. Foi a primeira vez que viajei em turnê com um espetáculo. Foi o maior desafio da minha carreira de atriz, afinal tratava-se do Imbuaça, nesta época ja com carreira internacional e reconhecido por toda a crítica do segmento. Valdice tinha um humor inteligente e era impossivel nao admirá-la.
Otto Cornélio, nascido em Japaratuba no ano de 1915, estudou teatro e cinema no Rio de Janeiro. Encabeçou a realização do primeiro festival de arte de Aracaju, fundou o Grupo Artístico Unidos e lutou pela construção de um Complexo Cultural Lourival Batista. Morreu em 2007, aos 92 anos.
Além de todo o engajamento cultural, o que mais me fascina e inspira na história do Otto é o fato dele ter subido ao palco pela primeira vez aos 49 anos, provando que nunca e tarde para se dedicar ao que se ama!
Antônio Mariano, ator, dançarino e pesquisador da área da cultura, fez espaço cênico no bairro Siqueira Campos, vitória simbolizada através parte do grupo Imbuaça e foi responsável por algumas mudanças conceituais nos espetáculos do grupo na década de 80, como a preparação corporal dos atores e inserção de coreografias e elementos do folclore sergipano nas peças. Faleceu em 1995, aos 34 anos, em um acidente de carro.
Mesmo nao tendo conhecido Mariano pessoalmente, é impossivel nao conhecer e admirar a sua trajetória, sobretudo eu tendo passado pelo grupo Imbuaça, que ate hoje carrega em sua história as referências e influências desse comprometido artista.
César Macieira, filho de Aracaju, nasceu em 1954, mesmo ano de inauguração do Teatro Atheneu. Formou-se em Medicina, especializou-se em Obstetrícia, mas não desistiu do sonho de infância: seguir carreira nas artes cênicas. Iniciou nos anos 70, na cidade do Rio de Janeiro, onde permaneceu por mais de uma década. De volta a Sergipe, dirigiu o Atheneu e teve participação ativa no processo de engrandecimento cultural de sua terra natal.
Ele é um ícone da cultura sergipana e o curioso é que, mesmo já atuando, o conheci primeiro como pai de uma colega de faculdade e somente depois nos reencontramos nas escadarias, coxias e corredores do Atheneu. Uma história fantástica de um artista que corajosamente abriu mão de uma carreira de medicina (muito mais aceita socialmente) para se dedicar exclusivamente ao teatro. Um ser que se só tivesse feito isso na vida ja mereceria o nosso respeito!
Luiz Carlos Reis, natural de Itabaianinha, participou de importantes montagens do teatro sergipano, seja como ator ou diretor. Algumas das obras que levam a assinatura de Reis: “Esperando Godot”, “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, “A Ordinária de Deus” e “O Corumba”. Ele também foi presidente do Sindicato dos Artistas de Sergipe e morreu no ano de 2010, aos 53 anos.
Ah, o que dizer de Luiz Carlos Reis? Um apaixonado pelo teatro, pelos artistas, escritores, personagens. Um artista que atuava em tempo integral e que vivia intensamente a sua arte, transformando sua casa no seu próprio palco e sua vida num eterno laboratório.
Além de ter estado em cena com ele, tive o prazer de ser dirigida por Reis em “O Corumba”, com a personagem Albertina. Com um estilo próprio de dirigir, Reis fugia do estereótipo de que todo diretor tem que ser duro e severo, ele era companheiro, competente e tudo que tinha a sua “cara”. Era leve e gracioso, os ensaios eram como lúdicas brincadeiras e as apresentações sempre majestosas.
Tenho certeza que de, onde ele estiver, está muito feliz com a reinauguração do Atheneu, dando aquela marcante gargalhada e, claro, brindando este momento!
Conheco pessoas que transformaram suas vidas e a vida de muita gente atravás da arte. Embora não seja uma das homenageadas dos painéis da fachada, minha sincera homenagem vai para Tetê Nahas, uma grande mestre, atriz, bailarina e diretora, que veio de uma familia pobre, filha de mãe doméstica e pai pescador, e que, com seu talento, mudou a realidade de toda a sua familia, tendo uma nova chance através da arte.

Tive o prazer de ser dirigida por Reis em "O Corumba", com a personagem Albertina / Foto: Arquivo Pessoal
Sei que hoje é o dia dela e imagino o quanto esté realizada em ter o “seu” Atheneu de volta. Tetê, obrigada por tudo que você representa na cena cultural sergipana e pela professora que sempre será!
A homenagem do AGV vai também para Virgínia Lucia, Isabel Santos, Lindolfo Amaral, Lizete Feitosa, Raimundo Venâncio, Diane Veloso, Rita Maia, Gustavo Floriano, Ewetton Nunes, Pedro Carregosa, Pierre Feitosa, André Santana, Anderson Charles, Maurelina Santos,… e todos os artistas que, de uma forma ou de outra, contribuem para que a cena cultural sergipana esteja sempre em crescimento.
Sou assinante da revista Vida Simples e a matéria de capa desse mês traz a seguinte reflexão/provocação: você anda desmotivado? Todo artista é um ser motivado de forma intrínseca, são motivados por natureza e continuariam artistas mesmo que jamais ganhassem dinheiro para isso.
Salve a arte e o teatro sergipano!
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